03/11/2025

Canoas está doente

Nossa cidade atravessa um dos piores momentos de sua história. E não é força de expressão: é a rotina de quem tenta atender sem insumo, com escalas incompletas e, muitas vezes, sem receber. A cidade perdeu sua válvula de alívio quando o HPSC foi devastado pela enchente de 2024; a reconstrução avança, mas a própria Prefeitura e a imprensa projetam conclusão somente para o segundo semestre de 2026 — até lá, a rede respira por aparelhos.

O efeito dominó é nítido. As UPAs vêm restringindo atendimentos por atraso nos pagamentos e insegurança de escala; houve troca emergencial de gestoras e protestos de profissionais. No Hospital Universitário, a restrição de atendimentos eletivos entrou em vigor em 17 de setembro e ainda não foi completamente normalizada. O heroísmo das equipes mantém as portas abertas — mas heroísmo não é política pública.

Também é preciso dizer, com todas as letras, quem Canoas atende. A rede é referência pactuada para 156 municípios — conforme dados do Plano Municipal de Saúde. Ou seja: pressão regional sobre um orçamento local. Atender como referência estadual e financiar como se fôssemos um distrito de Porto Alegre é uma matemática que não fecha.

Há responsabilidades divididas — e é aqui que a conta política precisa ser apresentada.

No Estado, o governo Eduardo Leite anunciou programas como o SUS Gaúcho e o Pró-Hospitais, com cifras bilionárias e decretos recém-regulamentados. Ótimo no papel; agora, precisamos daquilo que interessa ao paciente às três da manhã: quanto chega, quando chega, para quais serviços, com quais metas e com qual fiscalização, principalmente na Região Metropolitana.

Em Canoas, a condução tem sido errática. Em oito meses, a Saúde teve três titulares (Eduardo Bermudez, Marcelo Reis, Ana Regina Boll). Mudanças constantes de chefias e gestões interrompem um processo administrativo que já vinha defasado e expõem a ausência de equipe técnica experiente alinhada ao Paço Municipal. Soma-se a isso decisões sem lastro técnico, priorização orçamentária discutível e aumentos de gasto em agendas não essenciais, enquanto a linha de frente carece do básico

— um roteiro que não é liberal, nem eficiente.

No Hospital Nossa Senhora das Graças, sob intervenção municipal desde 2020, multiplicam-se denúncias de falta de insumos e atrasos às equipes. O Legislativo municipal já solicitou relatórios financeiros completos (livro-caixa, folha, contratos, receitas e glosas), justamente pela opacidade no período de requisição administrativa, mas os dados ainda não foram expostos. O recado é simples: quem administra com dinheiro público presta contas — sem subterfúgios formais.

O que defendemos? Transparência radical em contratos e repasses; licitações objetivas e competitivas, premiando desempenho e ampliando a disputa entre empresas sérias; pagamento das equipes como cláusula inegociável e auditável em tempo real; modelo de contratação moderno e previsível — não se

trata de ser “contra a pejotização”, mas de ser contra o improviso que transfere risco sem garantir condições mínimas para cuidar bem. E cronograma público e auditável da obra do HPSC, etapa por etapa, porque cada mês sem pronto-socorro pleno estrangula toda a rede.

Por fim, a pergunta que não cala: onde está a fiscalização cotidiana dos deputados estaduais e dos vereadores? Fiscalização não é press-release ou post de Instagram; é acompanhar, toda semana, escalas, insumos, filas, repasses e obras — e publicar relatórios com começo, meio e fim.

Não se trata de briga ideológica. É respeito à vida. O NOVO de Canoas escolhe enfrentar a crise com dados, metas e coragem para ajustar modelos que não entregam. Desassistência não pode virar rotina; atraso salarial não pode ser nota de rodapé. Na enchente, ninguém perguntou em quem o outro votou antes de colocar no barco e ajudar nos abrigos — agora, a água é a enxurrada de gente na porta dos pronto-atendimentos. Vamos devolver ar à rede com gestão séria, competição leal e responsabilidade compartilhada entre Município, Estado e os 156 pactuados. Canoas é maior que esta crise — mas, para isso, precisamos de mais empenho, mais seriedade e mais gestão.

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